Por: Érico Cavalcanti/ Ponto e vírgula
“ A solidão é fera, a solidão devora
É amiga das horas, prima-irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração”

Esses versos do Alceu Valença, definem muito bem o que é a solidão. Cada um de nós carrega a sua solidão. O termo é esse mesmo, carrega. Arrastar seria puxar e puxando ela ficaria visível, todos veriam e dariam opiniões, das mais comuns, tiradas dos livros de autoajuda, até aquelas dos psicoterapeutas. E ela é fera mesmo, ela devora. E ninguém está preparado pra pegar a própria solidão, colocar diante de si e conversar com ela, aí acontece que vamos carregando e deixando que a fera nos devore. Às vezes nem sabemos como essa solidão fez morada na gente, muitos nem desconfiam, quando se dão conta estão em depressão.
Eu faço parte de um grupo, que todos sabem como a solidão chegou até nós. Fazemos parte de uma associação chamada AVICO, Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19. É uma associação criada no Rio Grande do Sul. As pessoas com quem troco experiências e informações, são todas sobreviventes do COVID 19 e saíram com sequelas. Algumas com sequelas leves, outras nem tanto. Cada um de nós passou por uma experiência bastante dolorosa. Ainda estamos passando. Estamos tentando a adaptação às alterações que as sequelas nos impuseram. E ai chegamos às nossas solidões.
No meu caso eu estou prisioneiro no mundo dos outros, dependo deles. O meu ir e vir, a minha locomoção foi prejudicada, os pés ficaram quase rígidos, aprendi a andar novamente e não posso dirigir. Perdi a audição, uso aparelho que nem sempre funciona e descobri que as pessoas não gostam de repetir o que falam para um surdo. Tomo um monte de remédios por dia e pra ficar vivo, faço hemodiálise três vezes por semana. Mas, ainda não mudei meu nome, continuo o mesmo. Continuo não gostando de falsidade, mentira e traição.
Eu descobri uma ponte que me liga com o mundo exterior, passei a escrever mais. Se não fosse o exercício de escrever, voar pela janela que a vida me ofereceu, organizar as palavras no texto que brota na minha cabeça, me comunicar, eu já estaria devorado pela solidão Consegui que os amigos, sobreviventes do Covid, passassem a escrever, colocassem suas emoções em textos. Se comunicassem com eles mesmo.
Porque a solidão é fera, ela devora.