
Mercado Ver-o-Peso, Belém (PA)
Feliz da pessoa que possa ter tido na infância, o pai, a mãe, uma vó, um avô, alguém que o amasse muito e o tivesse acomodado em um colo confortável e iniciasse a contar uma história,daquelas recheadas de diferentes personagens, lugares curiosos, com crianças, animais que falavam e com a magia imposta ao clima de aventura, que permitia a ele sonhar e inventar novas “realidades”. E todas as histórias começando pelo “Era uma vez”.
Como dizem os psicólogos, a importância de ter alguém contando histórias,
desperta a curiosidade, estimula a imaginação, desenvolve a autonomia e o pensamento. Em mim essas histórias que foram contadas, estimularam a minha imaginação e criatividade.
Hoje, avô de netos distantes, não tenho como sentá-los em meu colo e contar as histórias que aprendi com Maria. Ela foi quem cuidou de mim na infância, lá em Belém, onde nasci e fiquei até os dez anos, depois fui morar no Rio de Janeiro. Ela cuidava da minha vó, que era diabética e ficou cega. Maria foi criada pela minha vó. Não casou, não teve filhos, diziam de um amor distante no tempo e talvez na verdade. Eu ia para a casa da minha vó, só pra ficar com ela. O carinho e o amor que ela tinha comigo,fizeram com que eu retribuísse e retribuo até hoje. Algumas poesias eu fiz para Maria ao longo da minha vida.
Lembro ainda, com absoluta nitidez das imagens que surgem na lembrança, de ir ao mercado do Ver-o-Peso com ela. Esse mercado naquela época vendia tudo, é um mercado público, uma feira-livre, na zona portuária,inaugurado em 1901, às margens da baía do Guajará. Para mim, ir no Ver-o-Peso, era o mesmo que estar em uma tribo da Amazônia,das muitas histórias que ela contava pra mim,assim como me contava também as histórias de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião,o Rei do Cangaço, lendário cangaceiro que atuava na região do sertão nordestino, Maria nasceu e viveu até aos 18 anos no interior do Ceará.
No Ver-o-Peso tinham os produtos que os índios fabricavam, tinham os pássaros que eram vendidos, como: papagaios, araras, periquitos e passarinhos de todas as cores,ainda tinham os filhotes de jacarés e gatos do mato. Para mim, eu estava na própria selva amazônica e ainda por cima com a Maria. Não tinha felicidade maior. Ela comprava sempre que íamos lá,um apito de barro,parecido com uma caneca pequena e que colocando água, ao assoprar, imitava um passarinho.
Eu fui para o Rio de Janeiro morar, como diz a música do Caymmi,só que não peguei um Ita no Norte,fui de avião com meu pai, irmão e minha mãe. A Maria ficou com minha vó. Um ano depois,eu cheguei do colégio e a família estava reunida,quando entrei na sala eles fizeram silêncio.Achei estranho! Meu pai me segurou no braço e me levou para o quarto, lá,sentamos na cama e ele iniciou a conversa dizendo:” agora você tem que ser forte e entender a vontade de Deus.” “Meu filho, hoje pela manhã, Maria voltando do Ver-o-Peso, foi atropelada e morreu.” Nossa! Eu até hoje não senti nada parecido,com o que senti naquele momento.Fui para meu quarto ,eu que não rezava nunca, rezei como ela tinha me ensinado.
Maria voltava do mercado sem o meu apito de barro. A minha infância ficou toda com Maria. Ficou dela em mim as histórias,todas muito lindas e que agora na lembrança iam morar.
Era uma vez, para todo o sempre