Ninguem gosta de revisitar os traumas da sobrevivência

23 de agosto de 2023

Descobri nesses últimos meses que falar sobre a minha sobrevivência ao Covid, não é nada agradável.Revisitar um trauma não é fácil, para falar sobre um período da minha vida que durou onze meses, todo ele na frente de batalha,três meses intubado e apagado numa UTI e mais oito meses vivendo dentro do quarto de um hospital. Vejam que classifiquei esse período vivido como uma frente de batalha, o que significa dizer que eu estava numa batalha, uma guerra, a qual fui obrigado a participar. E como meu exército só tinha um soldado,que era eu mesmo, cada revés sofrido demorava para recuperar. Então essa guerra tornou-se um trauma que mora em mim e revisitar um trauma não é nada prazeiroso. Quando você coloca esse trauma,diante da sua visão de memória, aquela que guarda tudo,ela lhe mostra ampliada,todas as cicatrizes das coisas que feriram você e hoje,são sequelas que ficaram da guerra travada.

A sobrevivência requer muita força,mental e física. A força mental para enfrentar os medos que os traumas impuseram a você e, ir ao encontro deles na jaula em que você colocou-os, entrar de chicote na mão, como um antigo domador de leões de espetáculo circense e coloca-los todos sentados,bem visíveis, à sua frente.A força física você não adquire comendo, se alimentando apenas,ela vem da força mental. No período que fiquei numa cama de hospital, perdi muito peso e massa muscular, perdi o equilíbrio, regredi para um estágio de bebê aprendendo a sentar, eu tinha medo de sentar na cama e cair. Os fisioterapeutas foram incansáveis,mas até que viessem as ordens mentais, que demoraram,o corpo não reagia, ele parecia querer continuar inerte na cama, dependente até de alguém pra puxar um lençol e cobri-lo.

Uma manhã a enfermeira,como elas faziam todos os dias, abriu as cortinas que barravam a claridade e a luz do Sol da manhã. O Sol entrou eu vi a copa das amendoeiras que cobrem as ruas do Rio de Janeiro,não escutei o canto dos pardais que infestam aquelas árvores, já estava surdo. A manhã estava tão linda que resolvi fazer minhas orações, eu fazia sempre à noite, agradecendo a Deus por mais um dia vivido. Depois da oração, como se uma voz me orientasse, eu comecei a pensar em como eu era antes e como era meu raciocínio. Esses pensamentos começaram a fazer parte dos meus dias,das minhas horas e das conversas comigo mesmo. Repetia-os sempre que estava sozinho. Aconteceu que no final de uma semana eu já conseguia mexer os braços, no início da outra semana eu mexia as pernas,consegui sentar na cama. Consegui puxar o lençol e me cobrir. Os fisioterapeutas se vangloriavam , achavam que tinham sido os responsáveis, sozinhos,por aquela recuperação Eu ficava olhando pra eles e gostaria de ter dito, mas não disse para não confronta-los com aquilo que talvez não acreditassem: – “ Tá, foi Deus que como sempre resolveu, me fez raciocinar e elaborar um exercício mental, me deu o caminho numa bela manhã com o Sol entrando no quarto do hospital”.  Como sempre Deus me ajudando, assim como fez com os médicos que cuidaram de mim, acredito que ele tenha ficado no ouvido deles dizendo o que deveriam fazer.
Hoje ,como o antigo domador, tento colocar, agora as sequelas, sentadas a minha frente,assim como fiz com os traumas e os medos, para que elas não avancem em mim. E, como feras famintas,me devorem.

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