PAPO NA VARANDA COM O AMIGO RAMIRO GUEDES

31 de agosto de 2023

Por: Érico Cavalcanti

O bravo ipê que resistiu ao tornado floriu!

O certo seria dizer, a minha casa tem uma varanda.

Mas, eu digo: a minha varanda.

É assim mesmo, eu tenho uma varanda. Ela até faz parte da casa, mas é minha. É aonde sento, as vezes sozinho e outras com o Pepe e o Bud, meus dois Golden Retrievers e visito o meu passado, olhando as árvores que plantei e,  antes do Covid me deixar surdo, escutava o canto dos pássaros. É nela que recebo os amigos escolhidos a dedo. Eu batizei minha varanda com o nome de Ramiro Guedes. Mandei fazer uma placa para colocar, Varanda Ramiro Guedes. Nessa varanda, o meu neto Pedro,deu os primeiros passos,desarrumou toda para brincar, deixava no ar os barulhos da infância e agora morando longe, deixou seus brinquedos, o colo de um avô vazio e uma saudade imensa.

Ramiro ,gostava de sentar na varanda e ficar em silêncio, olhando as árvores, um ipê amarelo que ele dizia que era dele, o verde intenso das árvores e do capim. Sentindo, como ele definiu, o cheiro que o vento trazia, “cheiro da natureza”. Eu não interrompia Ramiro quando ele estava nesse silêncio,esperava que ele falasse. Toda vez que ele voltava dessa meditação, ele voltava contando coisas da sua juventude,como: a passagem dele estudando para ser padre, contava sobre o pai dele, como ele jogava futebol, como tinha sido o período em que viveu em São Paulo. Falava no Saul, seu irmão. Ramiro contava do irmão de maneira muito engraçada, ele dizia que Saul frequentava todas as religiões, ele ia a missa, ao culto evangélico, ao centro espírita, Ramiro transformou Saul em um personagem engraçado. Ele passava pelas épocas com rapidez, daqui a pouco já estava em Jabuticatubas, no município de Minas onde ele foi Secretário de Educação. Aquele silêncio dele era a sua visita ao “baú do passado,” que todos nós temos, ele estava mexendo, arrumando o que viveu, pra poder conviver com o vivido. Como fazia ao arrumar os livros na sua biblioteca.

Os assuntos conversados numa varanda, seguem duas regras, a primeira é que mudam com a velocidade da inteligência e cultura de quem conversa. A segunda regra é, o que foi conversado numa varanda, fica na varanda. Ramiro obedecia religiosamente as duas regras, principalmente a primeira.
Quando estava próximo dos meus setenta anos, pensei em colocar em um livro as poesias que havia feito ao longo desses anos. Falei da ideia com Ramiro e ele pediu as poesias pra ver. Dei algumas para ele, daí alguns dias ele me ligou e me deu uma bronca,dizendo que eu havia escondido dele o meu lado de poeta.Escolheu as poesias,fez o prefácio do livro e abaixo de cada poesia escreveu um comentário.

O livro foi impresso com os comentários dele, uma pequena homenagem que fiz ao amigo.
Hoje,andando na varanda fiquei olhando um ipê que floriu,esse sobreviveu ao vento que passou por aqui,teve os galhos quebrados,saiu com sequelas, mas está vivo e cheio de flores. O outro ipê, o que Ramiro dizia que era dele, esse vento fortíssimo arrancou-o com a raiz. Acho que Ramiro deve ter levado para ficar olhando pra ele.

O velho Urso Branco,o Voz de Veludo, deve estar às gargalhadas olhando para o ipê.

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