Por: Érico Cavalcanti/ Ponto e vírgula
Essa história me foi contada por Nalda. Foi minha colega quando passei pelo serviço público, dividíamos a mesma sala minúscula de uma casa antiga em Botafogo, um bairro do Rio de Janeiro. Naldinha, como todos a chamavam, era uma mulher madura, já tinha seus 45 anos, tinha vinte anos como funcionária pública, era formada em Pedagogia e seu trabalho era voltado para traduzir os nossos projetos em linguagem acessível, passando do técnico para a linguagem popular. Por força do nosso convívio do dia a dia profissional, acabamos por estreitar também nossos laços familiares. Casada, tinha dois filhos, ela me apresentou seu marido, com o qual era casada há 17 anos. Eu brincava muito com ela, perguntava onde foi que ela tinha arrumado um homem com aquele nome. Eu dizia que ela foi procurar num cartório, para ter esse nome só pra ela. Ele se chamava Policarpo Caldas.
Drama de Nelson Rodrigues:
Essa parece uma daquelas histórias que o grande dramaturgo, Nelson Rodrigues, contava em suas colunas no jornal Última Hora, publicadas durante dez anos. A coluna dele chama-se “A Vida Como Ela É…” O cenário desses dramas e tragédias do cotidiano é o Rio de Janeiro da década de 1950, e seus personagens vêm das famílias tradicionais dos subúrbios cariocas, eram histórias do cotidiano, vividas por pessoas comuns, como eu, você e tantos outros, mas com o tempero do Nelson Rodrigues.
O gostosão:
Naldinha me escolheu para confidente. A vida de infelicidade no casamento, eu já tinha decorado por ela tanto me contar. Policarpo era um homem conquistador, metido a gostosão,
fazia um tipo de galã com olhar de mormaço. Se apresentava para as amigas de Naldinha dizendo: muito prazer, Policarpo Caldas, doce até no nome. Era sabido que ele tinha uma amante lá no bairro da Tijuca, uma amiga de Naldinha contou pra ela. Ele se apaixonou por essa amante e vivia com Naldinha como se já estivessem separados. Não existia mais intimidades entre os dois.
O Drama:
Um dia, ao atravessar uma rua para aproveitar o sinal fechado, ele correu e quando chegou no outro lado da rua, a vista escureceu e ele caiu desmaiado ao chão. As pessoas o socorreram, fizeram massagem no peito, alguém parou um táxi e levaram-no para um hospital público. Lá do hospital ligaram para Naldinha e ela saiu correndo pra ver o que tinha acontecido. Foi informada que Policarpo tinha tido um AVC muito grave. Que poderia até ficar em estado vegetativo. Naldinha ficou assombrada, talvez pelos filhos que poderiam perder o pai, não que ele fosse o melhor pai do mundo. Mas, como dizem, era o pai.
Lealdade:
Deus colocou as mãos, o Policarpo saiu do coma e foi se recuperando lentamente. A única companhia que ele tinha nessa recuperação e vivia com ele no hospital, era Naldinha.
Um dia, Policarpo teve alta no hospital e foi para casa. O gostosão, o galã, perdeu os movimentos do braço e da perna direita. A boca ficou levemente torta. Ele falava com dificuldade. E Naldinha acudindo-o. Dava comida na boca, dava o banho, dava os remédios, colocava-o no Sol todas as manhãs e conversava com ele. Nunca ela tocou no assunto da tal amante. Nunca perguntou o que ele estava fazendo na Tijuca, quando teve o AVC. Policarpo depois de meses, se recuperou. Não mais precisava tanto de Naldinha.
O admirador:
Um dia ela precisou ir ao hospital para pegar uma receita com o médico que havia atendido o Policarpo. Quando ela saiu do hospital, desabou uma chuva forte, ela então pegou um táxi que fazia ponto no hospital. Ela calada, cabeça baixa, durante o trajeto ,foi surpreendida com a voz do motorista, dizendo que fazia ponto ali no hospital, que já tinha observado ela outras vezes. Naldinha respondeu que era por causa do marido e contou para o motorista como ele tinha ficado. O motorista se colocou à disposição para transportá-la sempre que ela precisasse. Passou pra ela o telefone do ponto de táxi, ela passou pra ele o número do telefone da casa dela. Ao saltar em casa, o motorista de nome Carlos, disse as palavrinhas mágicas que acordaram Naldinha: eu sempre vi você de longe, hoje estou vendo de perto e vejo como você é bonita.
O conselho:
Naldinha se encheu de vergonha e rapidamente entrou no seu prédio. Mas, quem disse que ela esqueceu aquelas palavras do Carlos, o motorista? Vinte e poucos anos sem receber um elogio do marido, nem nos momentos mais íntimos… As palavras do Carlos fizeram raízes. Contou para uma amiga o que tinha acontecido. Esta logo aconselhou e sugeriu que ela procurasse o Carlos. Afinal de contas o casamento dela já não existia. E veio a frase que nessas horas algumas pessoas dizem: vá ser feliz, conhecer alguém que te valorize. Naldinha ainda ficou alguns dias sem coragem de ligar para o Carlos, até que criou coragem e ligou. Daí para frente foram viver uma felicidade escondida. As tardes eram passadas nos braços de Carlos, na casa em que ele morava, num canto de rua de um bairro pobre, mas Naldinha era feliz.
A tragédia
Um dia, Policarpo chama Naldinha pra conversar. Foi no final da tarde quando ela chegou da casa de Carlos. Sentou a sua frente e iniciou a conversa pedindo perdão pelo passado. Em seguida propôs a ela viver como no início quando casaram. Ela ouvia atentamente. Ele pediu então que ela dissesse alguma coisa sobre a proposta dele.
Naldinha começou a dizer que perdoava ele. Não perdoava por ter pena dele, mas porque ele tinha reconhecido o erro. E disse que não gostava mais dele, que viveria com ele como amigo.
Se você analisar o nome Policarpo, vai perceber que “Poli” significa muito, “carpo” sofrimento; dor e o sobrenome Caldas, algo feito com bastante açúcar, faz mal à saúde.
Quando chegou tarde da noite, Naldinha, já quase dormindo, sentiu no seu quarto, um forte cheiro de gás vindo da cozinha, achou que um dos meninos, ao esquentar alguma coisa pra comer, tinha deixado alguma boca do fogão aberta. Levantou-se meio tonta e foi até as janelas do apartamento e abriu, foi até a cozinha, abriu a porta e deparou com o Policarpo deitado no chão da cozinha e já morto.
Como diria o Nelson, ” a vida como ele é”.. Abraços.
Grande Magno Penna, assim caminhamos todos!