A VIDA COMO ELA É: O VELÓRIO DO HOMEM QUE CONTAVA HISTÓRIAS

03 de outubro de 2023

Por Érico Cavalcanti/Ponto e vírgula

Mário era um homem que, se não tivesse nascido, tinha que ser inventado.

Eu estava em uma cerimônia fúnebre, olhando de longe o que estava acontecendo. Via as pessoas chegarem e se aproximarem de um caixão com um defunto dentro. Algumas faziam o sinal da cruz e oravam olhando para o morto. Outras só ficavam olhando e pareciam também orar. Eu não quis chegar perto, fiquei, como disse, olhando de longe, nem sequer fixei meu olhar no corpo de Mário, agora deitado e pronto para ser sepultado.Nunca mais ouviria a sua voz rouca a me contar as histórias vividas por ele.

O charme do morto

Mario tinha sido pra mim um dos melhores professores de vida mundana que eu tive. Essa vida que caracteriza o mundo a “vida em sociedade” em seus aspectos convencionais e superficiais, as formalidades e etiquetas. Fomos grandes parceiros.
Mario era um bom vivant, homem bonito, elegante, educado, meigo, tinha bom gosto em tudo que escolhia e, segundo as mulheres, tinha muito charme. As histórias em que ele se metia, algumas delas, poderiam fazer parte de filme de comédia. Não foi à toa que um filme nacional de comédia , que fez muito sucesso na época, chamado “Os Paqueras” com alguns episódios engraçadíssimos, trouxe um que foi vivido na vida real pelo Mário.

Situação constrangedora:

O episódio contava a história de um amante, que vai ao encontro da sua amada, casada, no meio da tarde e na casa dela. Quando eles estão na cama, no quarto do casal, escutaram a porta da sala se abrindo e o marido chamando a fulana. Só deu tempo do Mario pegar as suas roupas e se esconder atrás das cortinas do quarto, onde tinha um blackout grosso para escurecer o quarto. O apartamento era no primeiro andar e tinha a sua fachada toda em vidro. Quando Mario olhou para frente, viu algumas pessoas olhando pra cima, com cara de espanto e assustadas. Foi aí que ele lembrou que estava nu e pisava nas suas roupas que estavam no chão. Ele não podia se mexer pra vesti-las, as cortinas iriam balançar e o marido iria perceber. Começou a juntar gente na portaria do prédio e gritar para aquele homem sair dali. Uma vizinha resolveu chamar a polícia. Mario saiu preso como ladrão, a sorte foi que o delegado era frequentador do mesmo bar em que Mario tomava o seu chopp.

E por falar em Chopp…

Uma vez estávamos tomando chopp no Castelinho, bar famoso do Rio de Janeiro na década de 60. Era o bar da moda, frequentado por artistas, músicos, jovens em geral. Era uma mesa cheia, tinha outro amigo que ainda não era famoso do público televisivo, mas era famoso em Ipanema, era o Paulo Silvino. Tinha um gago na mesa que era amigo do Silvino, um cara todo metidão. Mário vivia implicando com ele. De repente Mário avistou alguém e foi ao encontro, voltou alguns minutos depois com um sujeito tipo halterofilista, hoje chamaríamos de marombeiro. Apresentou a todos e colocou o rapaz ao lado dele. Daqui a pouco o rapaz começou a falar e notamos que ele era também gago. Ninguém riu e cada um de nós pensou na coincidência de ter dois gagos na mesa. O gago que estava sempre conosco, respondeu uma pergunta que Mário fez a alguém da mesa, claro que gaguejando. O outro gago olhou pra ele e também gaguejando, falou: bababaca o que tata meme imitantando? Dito isso partiu pra cima do gago querendo enfiar a mão na cara dele. Tudo isso porque Mário ao convidá-lo para que ele viesse pra nossa mesa, disse que tinha um cara muito gozador e que talvez o imitasse.

História não contada:

No velório fiquei sabendo que Mário, desgostoso com a vida, fez de tudo pra morrer. Não se cuidou mais, remédios, esquecia de tomar, parou de comer. Mário morreu no quarto dos fundos da casa da sua mulher. Ela cedeu aquele quarto talvez pelos momentos felizes que tinha passado ao seu lado. Nas histórias que ele nunca contou, ele havia perdoado uma traição da mulher. Ao conviver com aquela traição, ele deve ter aberto espaço para que uma doença pulmonar fosse a causa da sua morte.

Eu tento lembrar de todas as histórias engraçadas do Mário, mas aquela que insiste em fazer morada em minha lembrança, é a do final de vida dele. Sempre imagino ele sozinho, morando em um quarto da casa que ele construiu e que sua ex-mulher cedeu para ele morar.

Mário escondeu sua dor de todos, no quarto dos fundos sem ninguém.

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