O LAGO, O POETA, O FIM; QUAND IL EST MORT LE POÈTE

12 de setembro de 2023

Por: Érico Cavalcati/Ponto e Vírgula

Me preparei ansiosamente para visitar o lago que me acalmava. Sentar novamente embaixo do ipê amarelo,olhar os patos deslisando em suas águas, os patinhos em fila, seguindo as mães e escutar o canto dos pássaros, que ali também fazem morada. O bem-te-vi,que parece ser um anunciador da vida que corre no lago, bem te vi, bem te vi,que ao escutar muitas vezes vivi. Esperei encontrar o canto suave do sofrê, do sabiá laranjeira, do bando de pássaros pretos e dos canarinhos da terra.
Me preparei para passar a manhã toda do domingo sentado à beira do lago. Agora sozinho, sem meu neto Pedro. Foi naquele lago que ensinei ao Pedro identificar o canto de cada pássaro. Foi ali também que escrevi algumas poesias, uma para o bem-te-vi.
Fui caminhando até o lago, ao chegar me deparei com o lago vazio, suas águas se foram, os patos devem ter buscado outro lago, o ipê amarelo não existia mais, não tinham pássaros, nem o canto deles nas árvores.
Mesmo assim fiquei olhando a areia fina,que hoje está no lugar onde existia água, as folhas mortas caídas, que o vento empurra, como a brincar com o fim. O lago secou, como o meu lago interior também secou. A poesia saiu, foi com as águas claras do viver, morreu, como se a noite chegasse ligeira e fechasse os olhos do defunto chamado dia. Sem poesia morre um poeta, parece um lenço branco ao longe.
Quand il est mort le poète,Tous ses amis,tous ses amis,
Tous ses amis pleuraient.
Um poeta morre diversas vezes, toda vez que ele se depara com à realidade.

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2 respostas para “O LAGO, O POETA, O FIM; QUAND IL EST MORT LE POÈTE”

  1. Kátia Armini disse:

    Érico, seus textos poéticos estão lindos. É uma pena que para gerar pérolas é preciso sofrer atritos. A dor que você está sentindo entá produzindo grande beleza em vc. Como diria Suassuna “Tudo que é ruim de passar é bom de contar”.

  2. Obrigado! Exato, o ser humano tem essa qualidade da ostra. Digo qualidade porque gestar no sofrimento, lapidar nas entranhas e conviver com o desagradável, como faz a ostra com um grãozinho de areia , para dar à luz a uma pérola, é uma dádiva de Deus. Conviver com a beleza do sofrimento é para poucos !

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